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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE EXAMINATION
NOVEMBER 2018
PORTUGUESE HOME LANGUAGE: PAPER II
MARKING GUIDELINES
Time: 2½ hours 80 marks
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Portuguese HL P2 Memo 2018 hlayiso.com
Portuguese HL · Grade 12 · 2018. Memorandum, 13 pages. Read online or download the PDF.
- Subject
- Portuguese HL
- Grade
- Grade 12
- Document type
- Memorandum
- Year
- 2018
- Paper
- 2
- Publisher
- IEB
- Pages
- 13
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SECÇÃO A POESIA / POETRY
Esta Secção contém duas (2) perguntas. Responda a duas alíneas da pergunta 1 e a
toda a Pergunta 2.
Antes de iniciar as respostas, leia todos os poemas com atenção para lhes
apreender o sentido.
PERGUNTA 1
1.1 "O dia em que nasci morra e pereça", de Luís de Camões
1.1.1 O poema é um soneto petrarquista, composição poética constituída
por 14 versos decassilábicos que se agrupam em duas quadras e
dois tercetos. 1ª e 2ª quadra: entre o primeiro e o quarto, e quinto e
oitavo a rima é interpolada, sendo emparelhada entre e segundo e o
terceiro, e o sexto e o sétimo versos. É alternada nos tercetos. A
rima é toda consoante.
O / di / a em / que eu / nas / ci / mo / rra e / pe / re / ça
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
1.1.2 O eu lírico exterioriza a sua profunda dor pela sua infeliz vida.
Começa por amaldiçoar o dia em que nasceu, morra e pereça,
exprimindo o desejo de que dia igual, no qual posssam nascer
pessoas tão infelizes como ele, não se volte a repetir, não torne mais
ao mundo, veiculando uma ideia de solidariedade e fratenidade, não
o queira jamais o mundo dar; os sentimentos de revolta vão-se
intensificando, num crescendo, eclipse nesse passo o Sol padeça.
Eclipse tem um significado dicotómico exprimindo tanto um eclipse
no sentido literal da palavra, como a obliteração mítica de tal dia
para que não nasçam pessoas desafortunadas. Na segunda quadra,
o eu lírico apresenta um cenário apocalíptico como personificação
do seu desespero psicológico. A seguir constata-se uma diminuição
da intensidade da dor, até que, por fim, no último terceto, expõe a
razão da exposição: que este dia deitou ao mundo a vida / mais
desventurada que se viu!
1.1.3 O poema é dirigido à gente temerosa com o intuito de a persuadir,
pelo terror, que o eu lírico é digno de compaixão.
1.2 "Vela do exílio", de Gabriel Mariano
1.2.1 Acendi uma vela – significado literal. Literalmente, a referência à vela
que ilumina o eu lírico e que, por associação, é relacionada com as
velas dos barcos de pesca, profissão de grande parte da população
cabo verdiana.
no barco em forma de vela – sentido figurado. A vela de estearina e a
chama ondeando transportam-no ao passado, ao tempo em que via,
de facto, os barcos e as velas nas praias das ilhas de Cabo Verde.
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1.2.2 A vela que ilumina o eu poético desencadeia uma saudade intensa,
tão profunda que provoca a erupção da recordação da sua terra
natal, as ilhas de Cabo Verde. A ânsia é paralela à lembrança, ao
desejo de as poder ver novamente, porém, no momento presente, o
seu pensamento apenas é capaz de visualizar o mapa de Cabo
Verde projetado na parede, enfatizando a recordação de pessoas /
vivas e mortas. A intensidade da saudade traz-lhe, de longe, a voz
materna, voz esta que personifica as ilhas de Cabo Verde, a terra
natal, a mãe espiritual com a qual os cabo verdianos nunca cortam o
cordão umbilical.
1.2.3 Nesta estância é-nos revelado que se trata de um exílio político. O
eu encontra-se em Moçambique, mais propriamente na Ilha de
Moçambique (conhecimento que certamente a/o professor[a] terá
transmitido aos discentes), podendo a palavra veleiro ter também
uma dualidade de significados. O pesado, inútil veleiro poderá
referir-se à inutilidade do seu exílio devido às suas ideias políticas,
não havia razão para o exilar, mas pode também conotar a Ilha de
Moçambique, considerada como um barco, como um pesado veleiro,
e inútil porque não sai do mesmo lugar, não o pode levar à pátria.
1.3 "O Último Adeus Dum Combatente", de Vasco Cabral
O poema divide-se em três momentos:
1º momento – vv 1 – 5
2º momento – vv 6- 8
3º momento – os dois tercetos
No primeiro momento, o eu poético parte e relembra a grande dor da
despedida da sua amada. A dor do eu poético é intensificada por constatar
a dor da amada. Ele, portanto, sofre duas dores, a dor dele e a dor dela.
No segundo momento, o eu lírico declara que o amor da sua amada não o
contenta. Ele tem um amor maior, um amor que abrange a humanidade,
por isso parte para a guerra, para lutar, pode-se dizer, pelos direitos
humanos do povo guineense, como implicitamente sugere a palavra
'humanidade'.
No terceiro momento, pede à sua amada para ela imaginar que ele não
partiu e que ela se lhe entregou, aludindo assim a um amor não de
namorada, mas de mulher, de mulher-companheira, criando um
comprometimento entre ambos; deste modo o eu assegura que ela o
espera. Se ela pensar sempre nele como um ente presente, conseguirá
minimizar a dor. Declara o seu amor pela amada e exprime o desejo de
que ela o não esqueça, e que não perca a esperança no seu regresso.
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1.4 "Momento num Café", de Manuel Bandeira
Isotopias da morte – enterro, tiraram o chapéu, saudavam o morto; se
descobriu num gesto longo e demorado; esquife, matéria, alma.
Isotopias da vida – maquinalmente, voltados para a vida, absortos na vida;
a vida é uma agitação feroz e sem finalidade; a vida é traição.
O eu poético narra os factos como num conto ou como quem narra uma
história, como uma testemunha, como um narrador homodiegético:
"Quando o enterro passou"... não há data, não há hora. A cena está
suspensa no tempo; utiliza também os verbos no passado para dar a
sensação de factos já ocorridos, mas sem especificar o "quando": passou,
achavam, tiraram, saudavam, estavam, descobriu, sabia, saudava e
passava.
Os três primeiros versos mostram um gesto incomum hoje em dia nos
grandes centros urbanos, mas que ainda perdura no interior. Momentos
considerados respeitosos como uma refeição, um velório ou mesmo a
passagem de um cortejo, são marcados por esta atitude: tirar o chapéu.
Mas o que chama a atenção é o advérbio empregado no terceiro verso:
maquinalmente; os homens tiraram os seus chapéus como autómatos,
talvez mais por convenção social do que propriamente por respeito para
com o morto que passava. Isto confirma se no quarto verso: Saudavam o
morto distraídos. Não há comprometimento, não há nada que una os
homens daquele café com o morto que passa. Por que o saudavam
distraídos? Podemos tentar responder com os versos cinco, seis e sete. O
termo "vida" é enfatizado por ter sido repetido três vezes nos últimos três
versos desta primeira estrofe: Estavam todos voltados para a vida –
Absortos na vida.
O eu poético procura fixar esta palavra na cabeça do leitor, ou quer mostrar
que naquelas cabeças presentes naquele café não havia espaço para a
morte. Todos os pensamentos estavam concentrados e esperançosos na
vida, dedicados à vida. Era apenas mais um morto, mais um entre tantos
cortejos por quem ninguém se interessava. Os verbos no passado também
ilustram esse passado que passava diante dos olhos daqueles
espectadores.
O que faz com que este enterro não seja apenas mais um entre tantos
outros? O que há nesta cena que chama a atenção do nosso narrador? O
poeta percebe que há um entre os homens ali presentes que não tirou o
seu chapéu de forma autómata como os outros: Um no entanto se
descobriu num gesto largo e demorado.
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Mais do que descobrir alguma coisa, o homem se descobriu. Não foi
rapidamente, mas num gesto largo e demorado; é como se uma eternidade
coubesse no tempo da passagem do esquife. O advérbio longamente,
utilizado no verso nove, auxiliado pelo verbo olhar no gerúndio, demonstra
de modo claro esta sensação de algo duradouro. Uma fração de segundos
que dura o suficiente para que aquele homem perceba mais naquilo que
vê. Ele não é um simples observador, mas sim participante da cena: o eu
lírico, como uma testemunha, observa o homem que observa o caixão do
defunto que passa à sua frente.
Os dois versos que se seguem vão apresentar a palavra vida novamente,
não como um termo passivo como nos versos cinco, seis e sete, e sim
como um termo carregado de significação em parceria com o verbo ser no
presente do indicativo. O homem, personagem da ação, sabia que a vida
é: uma agitação feroz e sem finalidade, a vida atraiçoa. O poeta não utiliza
termos suaves para dar significado à vida. Além de esmagar, de aniquilar
(ser feroz) e não ter um objetivo ou algo a ser alcançado (sem finalidade), a
vida é desleal (traição). A morte, apesar de ser a única certeza do ser
humano, é um facto do qual não se sabe data e hora, muito menos o que
esperar – se é que há algo a esperar – após a sua chegada. A vida é
traição porque engana o ser humano, não levando em conta os seus
projetos, as suas esperanças e desejos.
A vida é efémera, acaba à mesma velocidade com que se toma uma
chávena de café, e aquele homem, com um conhecimento intrínseco maior
do que os outros, saudava, conscientemente, a matéria que passava,
matéria liberta para sempre da alma extinta, liberta das vicissitudes da vida.
Além de usar um verbo no particípio, indicando uma ação que está
plenamente concluída, o eu poético ainda reforça a ideia com o para
sempre. Não é apenas agora, é para sempre.
[<www.naudaprosaepoesia.com.br> (texto adaptado e com supressões)]
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PERGUNTA 2 POEMA DESCONHECIDO / UNKNOWN POEM
Esta pergunta é obrigatória.
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[Source: <www.slideshare.net>]
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SECÇÃO B ROMANCE / NOVEL
Deve responder a uma pergunta de ensaio e a uma pergunta direcionada. Se tiver
respondido ao ensaio na Secção A, nesta secção deve responder a uma pergunta
direcionada, e vice versa.
PERGUNTA 3
As mulheres de meu pai, de José Eduardo Agualusa
3.1 Na hora da morte, a mãe de Laurentina diz-lhe que não é filha do homem
que a tinha criado, mas de Faustino Manso, um músico angolano.
Laurentina parte para Luanda, acompanhado do namorado, à procura do
pai biológico. Quando chega recebe a notícia de que falecera e só lhe resta
ir ao funeral, onde pela primeira vez encontra a família que supõe sua.
Falam-lhe também do tipo de homem que Fastino fora, um bon vivant com
respeito a mulheres, do número de filhos que tivera e dos países africanos
em que tocara. Curiosa, Laurentina decide fazer uma viagem pela África, ir
aos países em que o pai estivera, falar com as pessoas que o tinham
conhecido, com as mulheres que o tinham amado e com os seus supostos
meios irmãos. A viagem que se inicia em Luanda passa pela Namíbia,
África do Sul e termina em Moçambique. Para além de ser um livro de
viagens, também é um livro-viagem, remetendo para a viagem que as
personagens iniciam no seu próprio íntimo. Há ainda as viagens nos
universos sociais, políticos e económicos.
3.2 Laurentina, a suposta filha de Faustino Manso, é uma jovem de espírito
aberto e teimoso que inicia a viagem de recapitulação da vida de Faustino
Manso com vontade de absorver tudo o que aquela lhe proporcionasse,
espaços variados (psicológicos, sociais, etc.), personagens, história.
Compreende que a música do pai estabelecera uma série de relações que
se projetam além do espaço específico de uma cultura, num laço identitário
e cultural que transcende as raízes nacionais. Chega como portuguesa,
mas as vivências da viagem levam-na a compreender que a identidade é
inconstante. Sente-se atraída por Bartolomeu, aproxima-se dele,
despertando o ciúme e a zanga de Mandume, o namorado. Aberta, sem
disfarces, Laurentina, através do seu ofício de documentarista,
compreende que a identidade flui por entre vários lugares. Com a abertura
ao espaço africano e às variadíssimas culturas e personagens com que
contacta ao longo da viagem, Laurentina completa-se. Para Laurentina, a
viagem não foi apenas uma viagem de conhecimento do Outro, mas
também de si mesma.
Mandume é o namorado de Laurentina. Mandume é orgulhoso, não se
reconhece como angolano apesar das suas raízes, visto ser filho de um
casal angolano cujos familiares tinham sido assassinados pelo regime
angolano pós-independência e tinham rejeitado a nacionalidade angolana
(africana). Rejeita África, diz que «Nunca gostei de África. […] Raízes?
Raízes têm as plantas e é por isso que não se podem mover. Eu não tenho
raízes. Sou um homem livre.» E quer que a namorada sinta da mesma
maneira, «Raízes têm as árvores, nem eu nem tu [Laurentina] somos
africanos (p. 42)». É inevitável o choque de culturas e de costumes, tanto
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mais que se nota a intolerância de Mandume em relação a tudo. Afirma
categoricamente ser português, «Felizmente os meus pais ficaram em
Portugal. Nasci em Lisboa. Sou português. Houve uma fase da minha vida,
entre as dores e os ardores da adolescência, em que tive dúvidas. Não
sabia muito bem a que mundo pertencia. (p. 70)», mas no presente está
convicto da sua identidade portuguesa.
Bartolomeu é branco, sobrinho de Laurentina. Defende a mestiçagem
cultural como um avanço nas relações sociais: «O que eu acho é que as
sociedades crioulas têm uma vocação natural para a alegria. [...] O
carnaval, por exemplo: onde é que no mundo se brinca ao carnaval com
mais alegria? [...] No Brasil, em Luanda, Benguela, Cabo Verde, Cape
Town e Quelimane (p. 209-210)» Bartolomeu sente a necessidade de se
encontrar como angolano, compreende a necessidade de criar laços com o
espaço em que nascera, por isso parte em busca do ser angolano, não
pela cor que o angolano possui, mas pela sua relação com o espaço em
que vive, relação que passa a ser aprofundada e amadurecida à medida
que a viagem progride. Irónico, bem humorado, irrita Mandume.
Pouca Sorte é o motorista da Malembelembe que os transporta na viagem.
É albino, um ser marginalizado em muitas partes de África. Não se sente
preso a lugar nenhum, diz que «Eu porém não estou em lugar nenhum.
Sou de passagem, o que é diferente de estar de passagem. Sou o que não
tem lugar em lugar nenhum. (p. 519-520)». Quer dizer que vive fora da
sociedade. De nome Albino Amador, nome altamente significativo, recebeu
a alcunha de Pouca Sorte porque, como ele próprio diz, não tem sorte com
as mulheres, «as mulheres não gostam de mim (p. 46)». É um ser
enigmático, esconde um passado tortuoso. Dorme enquanto conduz
porque, segundo ele, a Malembelembe conhece as estradas e caminhos
por onde já tantas vezes andou.
3.3 O narrador é Mandume / Mariano Maciel, o namorado.
3.4 A constatação de que Faustino Manso é estéril patenteia a infidelidade das
mulheres, mas não num sentido de crítica. A mulher tem um elo intrínseco
com a terra, com África, a mãe África, sugerindo a fertilidade deste
continente em todos os sentidos – culturais, económicos, sociais ... No
entanto, implicitamente, descobre-se o elogio do sexo, o sexo aparece
livre, distanciado do moralismo e do puritanismo.
3.5 ... Malembelembe desmaiou, esgotada, algures em pleno Karoo.
Personificação da carrinha que transporta os viajantes, mostrando o
cansaço da máquina após percorridos milhares de quilómetros. É
considerada como mais uma companheira na viagem.
Parecia brotar do chão, como uma flor arcaica.
Comparação, visualizando o surgimento repentino da pequena casa, tão
integrada na paisagem que parecia fazer parte do solo, como as plantas.
OU
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PERGUNTA 4
A viagem é a mola que impulsiona as personagens a construírem-se a si próprias.
Laurentina vai em busca do pai biológico, reconstroi o seu percurso para se encontrar
a si própria, como ela própria diz: «Eu sou certa – uma boa portuguesa, mas também
me sinto um pouco indiana; finalmente, vim a Angola procurar o que em mim possa
haver de africano» (p. 36).
Mandume diz que é português a quem lhe pergunta se é angolano. Nega a suas
ligações com África. Afirma que «Nunca gostei de África. Vi como a África destruiu os
meus pais. Li alguns livros que eles guardam no escritório, isso que alguns chamam de
literatura angolana: a vitória é certa camarada! A poesia é uma arma, Sábado
vermelho. Panfletos políticos, escritos, o mais das vezes, com os pés. Raízes? Raízes
têm as plantas e é por isso que não se podem mover. Eu não tenho raízes. Sou um
homem livre. Raízes têm as árvores, nem eu nem tu [Laurentina] somos africanos. (p.
42)» Nasceu em Lisboa, é português. Alguém acha semelhante o seu andar com o
dos africanos, rejeita a ideia, diz que os pais nasceram em Lisboa. Não se integra no
espaço angolano, reconhece Portugal como o seu espaço. Ironicamente, a cor
inferioriza-o na terra de brancos, mas apresenta-se branco na terra de pretos.
Bartolomeu é branco em terra de pretos, por isso não lhe dão credibilidade enquanto
africano; ironicamente, também, em terra de brancos não o aceitam como angolano.
Para ele, a viagem tem a finalidade de criar os elos imprescindíveis com o espaço
angolano, o seu espaço, com o espaço em que nascera, África. Laços que se criam,
não pela cor, mas pela relação com a terra em que se vive.
A viagem, portanto, proporciona viagens pessoais, a construção ou a reconstrução das
identidades, em contacto com os novos espaços, espaços que provocaram o
questionamento das vivências das personagens. É precisamente nessa dinâmica que
surge Pouca Sorte, o albino, aquele que diz «Eu porém não estou em lugar nenhum.
Sou de passagem, o que é diferente de estar de passagem. Sou o que não tem lugar
em lugar nenhum. (p. 519-520)». Pouca Sorte é o ente em trânsito constante, em
viagem constante, e é a chave para o autor veicular a conclusão da fluidez das
identidades. Estas estão em constante fluxo e ligam-se aos espaços vividos e em que
se vive.
A descolonização originou a diáspora que levou as pessoas a outros lugares, situação
que proporcionou a alteração da identidade cultural, a sua fixação ou rejeição,
dependendo das situações vividas. O conceito de identidade cultural e nacional é algo
que se tem modificado ao longo de séculos e de situações. Não é algo uno ou
indivisível. A identidade individual está sujeita a mudanças e foi isto que a
descolonização proporcionou. Após a diáspora, surge a diferença, o Outro de cultura
diferente e a complexidade inerente ao sentimento de pertença. Afinal, quem sou eu?
A que espaço pertenço? A identidade vai-se formando (ou modificando) pela diferença
que se verifica nos outros, quer dizer, vai-se transformando em relação às nossas
vivências e às pessoas com quem contactamos. A globalização torna o assunto ainda
mais complexo e existe cada vez mais um sujeito fragmentado, perdido o elo que o
prendia a um determinado espaço, e lançado num mundo aberto a todas as
influências. Hoje os indivíduos movimentam se em espaços culturais diferentes e
assim, inconscientemente, se dá a evolução – a transformação – da sua identidade.
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SECÇÃO C TEATRO / DRAMA
Se, na Secção B, tiver respondido apenas à Pergunta 3, deve, nesta Secção, responder ao
ensaio (Pergunta 6, que é uma pergunta de desenvolvimento). Se, pelo contrário, na
Secção acima tiver respondido apenas à Pergunta 4, deve agora responder à Pergunta 5.
PERGUNTA 5
Felizmente há luar, de Luís de Sttau Monteiro
Excerto do Ato II
5.1 O trecho transcrito refere Vicente. Explique de quem se trata e caracterize
esta personagem.
Vicente é o que no tempo de Salazar se designava «bufo», o denunciante,
o informador da polícia, não porque gostasse da situação em que Portugal
se encontrava, dominado pelos ingleses no presente da peça de teatro,
mas por se sentir revoltado com a sua própria condição social. A traição
era a única maneira de ascender a um patamar mais elevado e libertar-se
da pobreza, mesmo à custa daqueles que pertencem ao povo, como ele.
5.2 (Matilde, profundamente desanimada, começa a afastar-se do grupo e
aproxima-se da esquerda do palco.) Identifique Matilde e explique por que
motivo procura os populares.
Matilde é a dedicada, leal e corajosa companheira do General Gomes
Freire, que fora preso. Defende a sinceridade, denuncia a falsidade e reage
contra as injustiças que vê em Portugal. Procura os populares, depois da
prisão de Gomes Freire, para lhes pedir auxílio, mas desanima quando
constata que eles, em função das condições em que vivem, não têm
condições de a auxiliar.
5.3 Estava na rua quando prenderam o general. A prisão do 'general' teve
grande impacto no povo. Contextualize a figura do general e defina a sua
função na diegese.
Apesar de ser uma personagem ausente, Gomes Freire tem um peso
inegável pois é o catalisador, é a motivação para que o povo se revolte
contra os opressores, apesar da lição que os governantes pensam
transmitir ao povo com a sua morte na fogueira. Enquanto vivo, é a ameaça
constante que pende sobre a cabeça dos governantes, uma vez morto,
determina o início de uma nova era revolucionária. Vivo ou morto, apenas o
seu nome é motivo de insegurança e terror para a junta que governava
Portugal, incluindo Beresford.
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5.4 O nome da peça é Felizmente há luar. Efetue a interpretação deste título.
Felizmente há luar é o título da peça de teatro cuja trama se desenrola no
séc. XIX. Gomes Freire é morto na fogueira. Para os governantes, o luar
permitia que a execução fosse vista por todos como uma lição a não
esquecer. Para Matilde, o luar permitia que se visse a grande injustiça que
se cometia, e o luar, pela sua claridade, permitia que não fosse esquecida,
porque encheria de ódio os corações do povo, estimulando o desejo de
revolta. Assim, aquilo que para os governantes era o fim de um período
para eles perigoso, torna-se a mola incentivadora que em segredo se ia
soltando, o impulso revolucionário. «Julguei que isto era o fim e afinal é o
princípio (...) Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e
abram as almas ao que ela nos ensina!(...) » (pg. 164).
Luís de Sttau Monteiro problematiza a situação de Portugal nos anos
sessenta, quando a peça foi escrita (1961), com o fim de veicular a
mensagem de revolta contra a ditadura de Salazar. Desta forma, o título
atinge, séculos depois, o mesmo povo português, oprimido, explorado,
injustiçado, incitando à revolta.
5.5 Felizmente há luar apresenta dois textos paralelos. São as didascálias.
Explique a função desses dois textos na peça de teatro.
As didascálias são um texto secundário de suporte ao texto dramático,
constituído pelo chamado texto principal (falas, réplicas ou atos linguísticos
que se destinam à comunicação dos atores entre si e que os espectadores
possam ouvir), e o texto secundário, formado pelas instruções para a
encenação da peça: movimentos e posições das personagens, cenários,
gestos e tons de voz (ironia, escárnio, indiferença, desprezo, irritação ou
tristeza, esperança, medo, desânimo), vestuário, sons (em Felizmente há
luar, o som dos tambores, o silêncio, a voz que fala antes de entrar no
palco, um sino que toca a rebate, o murmúrio de vozes, o toque de uma
campainha, o murmúrio da multidão) e efeitos de luz (também em
Felizmente há luar, o contraste entre escuridão e luz; os dois atos terminam
em sombra, de acordo, aliás, com o desenlace trágico).
Na peça, há dois tipos de didascálias. Um acompanha as falas das
personagens, aparece em itálico e, por vezes, entre parênteses,
preenchendo o papel tradicional deste tipo de texto: indicação do nome das
personagens, das suas movimentações em cena, do seu tom de voz,
gestos, guarda-roupa, etc. O outro surge ao lado do texto principal, no qual
se nota uma clara divisão, um lugar exclusivo, é mais extenso e constitui
uma forma de «análise interpretativa do texto principal».
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5.6 Analise o sentido das falas de Manuel, evidenciando como a personagem
define a situação vivenciada pelo povo.
A fala Não é de espantar. Deus escreve torto por linhas direitas, indica a
injustiça da prisão de Gomes Freire, por isso Manuel diz que Deus escreve
torto.
A segunda fala de Manuel demonstra conhecimento da pobre situação do
povo oprimido, vivendo na mais completa miséria. Uma situação tão pobre
que, embora os corações ardessem com a injustiça e com o desejo de
revolta, nada podia fazer, sem meios para tal. Critica que o povo pede
auxílio aos ricos, e que estes os rejeitam, os ignoram. São marginalizados,
como se a cidadania pertencesse apenas às elites. Porém, em caso de
necessidade, então o governo lembra-se dos outros cidadãos, daqueles
que se tornam apenas visíveis em tempo de guerra. Foi precisamente o
que aconteceu aquando da guerra colonial em África e, assim Sttau
Monteiro problematiza o presente da escrita (1961).
OU
PERGUNTA 6
Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto
é, em 1965, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à
descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe, também, colocar
em destaque as injustiças do seu tempo.
Espera-se que os candidatos efetuem uma comparação adequada que demonstre
conhecimento da peça e do presente da escrita.
Total: 80 marks
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