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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE EXAMINATION
NOVEMBER 2018
PORTUGUESE FIRST ADDITIONAL LANGUAGE: PAPER II
MARKING GUIDELINES
Time: 2 hours 70 marks
These marking guidelines are prepared for use by examiners and sub-examiners,
all of whom are required to attend a standardisation meeting to ensure that the
guidelines are consistently interpreted and applied in the marking of candidates'
scripts.
The IEB will not enter into any discussions or correspondence about any marking
guidelines. It is acknowledged that there may be different views about some
matters of emphasis or detail in the guidelines. It is also recognised that,
without the benefit of attendance at a standardisation meeting, there may be
different interpretations of the application of the marking guidelines.
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Portuguese FAL P2 Memo 2018 hlayiso.com
Portuguese FAL · Grade 12 · 2018. Memorandum, 10 pages. Read online or download the PDF.
- Subject
- Portuguese FAL
- Grade
- Grade 12
- Document type
- Memorandum
- Year
- 2018
- Paper
- 2
- Publisher
- IEB
- Pages
- 10
- File size
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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE: PORTUGUESE FIRST ADDITIONAL LANGUAGE: PAPER II Page 2 of 10
MARKING GUIDELINES
SECÇÃO A ROMANCE/NOVEL
PERGUNTA 1
1.1 O narrador homodiegético – testemunha e participante dos acontecimentos −
é um habitante de Tizangara, aquele que é oficialmente nomeado 'tradutor' do
administrador Estêvão Jonas e da delegação estrangeira que vinha investigar
as explosões dos capacetes azuis. A palavra 'tradutor' assume um significado
muito mais profundo porque não é um tradutor de línguas, mas o 'tradutor' de
culturas, indivíduo assimilado que tem conhecimento da cultura ocidental e da
cultura africana, isto é, vive 'entre' as duas culturas. Tem a função de fazer
chegar até ao leitor a mentalidade, as emoções, a maneira de interpretar as
coisas, o conhecimento empírico, as indignações, as esperanças e receios, a
revolta de um povo explorado pelos próprios conterrâneos, a cultura em geral,
e as consequências para os elementos híbridos, como ele próprio, que
participam das duas culturas sem, no entanto, pertencerem inteiramente a
nenhuma delas. Daí dizer-se, tal como Homi Bhaba, que vivem entre as duas
culturas e, que, por isso, faz compreender a Massimo Risi a importância de
conhecer a cultura que se vincula à língua africana da área. É ele que
recupera as vozes tradicionais e as daqueles que não têm voz.
1.2 1.2.1 Começaram a ouvir-se explosões e delas restavam apenas falos e
boinas azuis, única prova de identidade dos explodidos, visto essas
boinas serem a dos soldados das Nações Unidas enviados para
Moçambique no processo pós-guerra civil.
1.2.2 Essas explosões representam a castração do poder e influência
estrangeiros (neste caso o do ONU), a recusa dessa influência em
função do processo de emancipação da nação moçambicana. A
permanência dos soldados das Nações Unidas foi desastrosa:
desconhecem os costumes e hábitos das populações, requisitavam
o serviço de prostitutas e violavam sexualmente raparigas. Para
além destes factos, fazia-se sentir claramento o domínio estrangeiro,
para além do da ONU, o que era inteiramente rejeitado pelo povo.
1.3 Nunca se chega a saber o responsável ou responsáveis das explosões porque
elas são simbólicas, representam a força da terra. Diversas personagens
assumem a responsabilidade das explosões, como o padre Muhando, sem na
verdade terem sido os autores delas, significando claramente a maneira como
o povo se sentia. Ana Deusqueira, a prostituta, acusa o administrador Estêvão
Jonas por estar envolvido na replantação de minas que tinham sido
desminadas. A recolocação das minas era uma estratégia do administrador
para reforçar a necessidade de ajuda estrangeira, ajuda rejeitada pelo povo.
1.4 1.4.1 O italiano é Massimo Risi, o chefe da delegação das Nações Unidas
enviado a Tizangara para investigar a causa das explosões dos
soldados do batalhão de paz.
1.4.2 Um polícia advertiu o estrangeiro: nada de fotografias, o momento
não era apropriado.
− Agora, uma coisa: o senhor nunca, mas nunca me fotografe nem
me grave. Quem é o senhor para andar a gravar e fotografar sem
autorização?
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1.5 1.5.1 Cabisbaixou-se → ficou abatido, deprimido, talvez um pouco
humilhado e desanimado.
A página adormeceu em branco. → Risi não escreveu nada na
folha.
1.5.2 É uma personificação sugestiva própria das modificações
linguísticas introduzidas por Mia Couto. Quer dizer que Risi
adormeceu sem nada ter conseguido escrever por se sentir abatido.
Ao longo da trama, Risi descobre que tem afinidades com a
população de Tizangara, sentindo-se, cada vez mais, incapaz de
uma fria investigação.
1.6 1.6.1 Temporina é a jovem velha. Velha de dia e jovem de noite. A raiz do
nome é tempo, articulando a sua função na obra. Velha de dia,
conotando a cultura secular e desprezada tanto pelas autoridades
como pelos elementos de fora do país. Jovem de noite, conotando o
desejo de rejuvenescimento do país mediante a fixação da
identidade cultural e nacional. Porém, à noite ninguém a via,
apontando para o desprezo dos estrangeiros e autoridades pela
cultura local, que permanece obscura, oculta.
1.6.2 Desempenha um papel dual, a dualidade tempo antigo ≠ tempo
novo; dualidade cultural e temporal.
Tempo antigo – poderá representar o tempo em que a população
sonhava com uma independência justa, para além de representar a
cultura secular.
Tempo novo – a realidade presente permeada de corrupção e de
influência estrangeira, mas sem que morresse o desejo de
esperança de um tempo melhor.
Cultural → tempo antigo → velho → os costumes, os hábitos, a
tradição e cultura que são ignorados tanto pelos estrangeiros como
pelos governantes que desejam enriquecer de qualquer modo,
enriquecimento facilitado pelos auxílios estrangeiros das Nações
Unidas e ONG's.
Temporal → a necessidade de escorraçar a influência estrangeira e
renascer da cultura e tradição, chaves para a construção da
identidade, de emancipação nacional.
OU
PERGUNTA 2
O ensaio deve focar os pontos abordados nas alíneas da pergunta 1, porém com
bastante mais desenvolvimento e demonstração de conhecimento da obra.
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SECÇÃO B PEÇA DE TEATRO/DRAMA
PERGUNTA 3
3.1 O Outro é o outro mendigo que aparece a esmolar à porta da igreja.
Representa o discípulo que aceita a relação e a aprendizagem do mestre,
neste caso o Mendigo. A conversão à filosofia do mestre significa uma
mudança de vida, a saber: mudança na maneira de pedir esmola que, face
ao exemplo do mendigo, o levaria também à riqueza.
3.2 3.2.1 O patrão de Juca – o Mendigo no presente da obra – visita Maria
com a intenção de roubar os planos de uma máquina em que Juca
trabalhava. Convence-a de que ficarão ricos. Sem que o marido
saiba, mostra os planos ao patrão, que fica com eles. Ao descobrir
que fora manipulada mediante sonhos de riqueza, enlouquece. Juca
tenta reaver os planos que lhe pertencem e é preso, acusado de os
tentar roubar.
3.2.2 A mulher do Mendigo fugira do hospício e vagueava pelas ruas. A
frase Dizem que anda pelas ruas a divertir os moleques quer dizer
que os jovens se aproveitavam sexualmente da sua loucura, dado
que, no Brasil, a palavra 'moleque' refere-se a rapazes.
3.3 O Mendigo passa a articular uma filosofia de crítica social, política e
económica. Chega à conclusão de que, no seu percurso de vida, o homem
entra em conflito com o próximo dado que a vida é um palco em que
intervêm diversas personagens. Na ânsia de enriquecer, de ser o melhor,
de ilusoriamente atingir a perfeição, o homem é o suicida de si próprio.
Todos se acomodaram, todos se sujeitam ao que lhes foi e é imposto, sem
procurar saber se havia outro modo. A vida é uma luta à procura da
felicidade, que não se encontra. Quem procura o dinheiro e pensa
encontrá-lo, engana-se, pois passa a viver no terror de perdê-lo; por isso
comete toda a espécie de injustiças sociais, e assim se perde, torna-se um
pobre de espírito. Em tempos recuados, a terra pertencia a todos, num
sistema comunitário, mas surgiu o capitalismo e a terra foi dividida. Os
mais espertos e fortes aproveitam-se dos mais fracos e têm o auxílio da
autoridade, e ele é o exemplo pois foi injustamente preso. Considera que é
impossível lutar contra os ricos, contra as elites, Depois, compreendi que a
vida é uma sucessão de acontecimentos inevitáveis ... É como não poder
evitar a chuva, o vento, a tempestade ... o dia e a noite ... Tudo o que
acontece é a vida, mas a vida no sistema social, político e económico que
domina a sociedade brasileira. Assim, decide aproveitar-se da sociedade
através da esmola, cobrando o que lhe é devido, e enriquecendo.
3.4 Mostra-se fatalista, mas sem crer no destino.
3.5 Na fala predomina o emprego das reticências que, neste caso, parecem
apontar para a corrente de consciência do Mendigo. As interrupções
causadas pelas reticências correspondem a pausas no pensamento do
Mendigo, como se estivesse a chamar à memória o que poderia
representar a sua prisão, diretamente ligada à sua filosofia de vida. O
ponto de interrogação da última frase tem por fim convencer o interlocutor,
o Outro, que a sua maneira de pensar apresenta a lógica da 'sucessão dos
dias e das noites'.
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3.6 O Mendigo não se deixa conduzir pelas emoções porque estas o levarão
ao sofrimento.
3.7 Os mais fortes, os mais espertos cujas atitudes e atos favoreceram o
surgimento das classes sociais e económicas, e assim se iniciou a
exploração do fraco pelo forte, processo que se perde em tempos
imemoriais. Este processo tem o auxílio da justiça e das autoridades
criadas pelos fortes para sua própria proteção.
3.8 3.8.1 A ilusão com que se dirigem à igreja por pensarem que o que de
errado fizeram será obliterado.
3.8.2 ... espectador do sofrimento humano e deixo que os homens lutem
para se livrar dos seus próprios erros.
3.9 3.9.1 É Nancy, a mulher que vive com o mendigo. O Mendigo fez-lhe uma
'lavagem ao cérebro' e convenceu-a de que só o dinheiro lhe trará a
felicidade. Implicitamente, nega a capacidade da mulher pensar por
si própria, nega-lhe a inteligência para se conduzir na vida.
Deixando-se levar pelo dinheiro, ela vende-se ao Mendigo, é uma
venda implícita dado que não tinha necessidade de sacrificar a sua
mocidade.
3.9.2 Nancy preparava se para fugir com Péricles (os candidatos poderão
dizer que é o amante ou pretendente de Nancy em vez de
mencionarem o nome), porém o mendigo causa-lhe inúmeras
dúvidas e destroça-lhe as ilusões. Confessa aos dois ser um pobre
que pede à porta de uma igreja, implicitamente aludindo a que as
pessoas vivem das aparências. Mortas as suas ilusões, convertida à
racionalidade do Mendigo, atraída pelo mistério que o rodeia, Nancy
procura-o por todas as portas das igrejas, tentando certificar-se da
verdade.
3.10 Seria arriscado perguntar a profissão a um capitalista porque, no contexto
da obra, são considerados corruptos. Só aos pobres se pergunta o que
fazem, porque os ricos, tendo em atenção as suas maquinações e
esquemas, teriam dificuldade em responder. Espera-se uma resposta mais
desenvolvida, e considerar-se-ão outras respostas desde que corretas à
luz da mensagem do drama.
OU
PERGUNTA 4
Em parte, a resposta a esta pergunta encontra-se nas respostas à pergunta 3. Os
candidatos devem analisar a situação do Mendigo, o que deu origem à sua
maneira de pensar, o modo como decidiu cobrar-se de tudo o que lhe era devido
pela sociedade, a sua filosofia.
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SECÇÃO C CONTO/SHORT STORY
PERGUNTA 5
5.1 Espaço – presume-se ser Lisboa/Portugal.
Tempo – durante a ditadura de Salazar. Esta é a componente mais
importante dada a dinâmica prevalecente: opressão do povo, vigilância da
Pide, prisão de todos os que se opusessem ou dessem sinais de se opor
ao sistema em vigor. Perseguições e prisões arbitrárias. Falta de
transparência e medo generalizado. Estes são os pontos que devem ser
desenvolvidos.
5.2 5.2.1 Verifica-se uma grande tensão nervosa diretamente resultante do
ambiente que se vivia em Portugal, e da perseguição e opressão a
que o povo estava sujeito. Os mínimos barulhos vindos do exterior o
perturbam, revelando que o homem era um militante, um membro da
oposição clandestina ao regime salazarista, e que vivia no receio de
ser preso.
5.2.2 O homem esperava que fossem os agentes da Pide que o iam
prender, daí a sua atitude defensiva. Ou talvez algum denunciante,
algum 'bufo' que ia vigiá-lo. Se não o fossem prender, talvez lhe
revistassem o quarto.
5.3 A personagem principal revela-se como alguém decidido a opor-se ao
regime político, embora com um certo receio, como quando sente passos a
subirem a escada e imagina ser a polícia política que o vem buscar. Os
olhos, os olhos tornavam-se maiores e entravam por ele dentro com uma
frieza de faca, revelam consciência do perigo, mas também a frieza, o
sangue frio necessário às grandes ações e decisões. É uma pessoa
determinada a lutar pela liberdade. Mudos indica a necessidade de apenas
comentar com ativistas de confiança para escapar à denúncia, aponta
também para o segredo com que se reuniam, e perscrutadores revela o
caráter investigativo e cuidadoso, como se nota quando se dirige para o
encontro, a fim de verificar se está a ser seguido. Indivíduo que Sabia tudo
e queria saber sempre ainda mais, saber o que se passava no país, saber
como seria possível derrubar o governo, saber que decisões eram
tomadas, como indica a expressão Saber o quê? Porém, lá fora apenas via
névoa, névoa, isto é, a impossibilidade de, no momento, derrubar o
governo, ação para a qual estava disposto a atirar-se, como aponta o verbo
atirá-los, conotativo da sua disposição combativa. Em suma, é uma pessoa
corajosa e determinada.
5.4 A descrição patenteia um rosto cansado (papos dos olhos inchavam),
envelhecido (as rugas cavavam-se), talvez não pela idade real, mas pela
tensão permanente. Os seus olhos revelam uma frieza de faca – o adjetivo
mostra que domina as emoções, estampando-lhe no rosto a determinação
de lutar, acentuada pela expressão de faca, expressiva da sua resolução
de matar caso fosse necessário.
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5.5 Em primeiro lugar, a personagem representa o povo na generalidade, vítima
da opressão e das manobras do sistema cujo suporte era a polícia secreta;
o povo desejoso de liberdade. Representa também todos os militantes que,
em segredo, se reuniam para falar da situação e planear supostas
tentativas de derrubar o regime que oprimia. A ausência de nome classifica-
a como uma personagem tipo, representativa das classes indicadas.
5.6 Diz-se que o conto transcende o contexto porque a situação articulada
transcendia as fronteiras portuguesas. Situações como a que Portugal
sofreu acontecem ainda no mundo, em que as pessoas diariamente iniciam
uma nova luta para sobreviver, lutam abertamente ou ocultas para
derrotarem os regimes dominados pela falta de clareza e opressão.
5.7 Luísa, Edmundo e os outros representam todos os militantes denunciados
e presos pelas autoridades, durante a noite. Indivíduos que tinham
desaparecido da sociedade, poderiam estar ainda presos ou mortos devido
às torturas a que eram sujeitos. Apesar de serem apenas mencionados,
configuram as consequências da luta contra a crueldade da tirania.
5.8 5.8.1 Num dos polos de interpretação, atravessando o nevoeiro significa
que a luta tinha sido ganha, que o regime fora derrubado e que o
nevoeiro se dissipara; no outro polo, a libertação dos prisioneiros
que atravessariam o nevoeiro para continuarem a luta, sujeitos aos
perigos da 'escuridão'; pode também apontar para a possibilidade de
não terem sido aprisionados e se movimentarem por entre o
nevoeiro no prosseguimento da luta de militância.
5.8.2 A expressão sugere a proximidade, a libertação da prisão, ou a
possibilidade de não terem sido presos e prosseguirem as reuniões
políticas ocultas, como poderá indicar a expressão encorajadora
pondo-lhe a mão no ombro. No entanto, e talvez o significado mais
forte, representa a aproximação sem medo das pessoas, conotando,
finalmente, a liberdade.
5.8.3 A personagem está decidida a lutar pela sua liberdade, a lutar contra
a polícia que o iria buscar. Não se deixaria levar facilmente, tê-lo-
iam pela frente, o que significa que se dispõe a lutar fisicamente
pelos seus ideais.
OU
PERGUNTA 6
A resposta a este ensaio encontra-se, em parte, nas respostas às perguntas acima.
Devem ser desenvolvidos todos os pontos que definem o regime durante o qual o
conto foi escrito: auge da guerra no ultramar, auge do salazarismo, a censura, a
falta de transparência do regime e a necessidade de contribuir para a
transformação do país.
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SECÇÃO D POESIA/POETRY
PERGUNTA 7
Pontos a serem focados: o poema-narração, a história contada.
A expressão Vim de qualquer parte realça que o título da composição se poderá
aplicar ao futuro cidadão de qualquer país que lute pela sua liberdade, porém o
advérbio aqui, no fim do terceiro verso, define o eu poético como o habitante de
um determinado país: Moçambique.
Será de notar a sequência das últimas palavras na segunda estância: eu → outro
→ irmão, sequência sugerindo o desejo de igualdade portanto, de fraternidade,
reforçada pela maiúscula com que se inicia a palavra Irmão. O terceiro terceto
inicia-se por uma oposição, mas, que contraria um pouco a ideia de fraternidade e
que, na opinião de muitos, devia iniciar-se pela copulativa E, dado indicar adição
e poder reforçar o terceto anterior. Poderá, no entanto, singularizar o eu poético,
contrastando-o com outros no seio dos quais existe apenas o ódio; singulariza e
reforça o afeto e harmonia do íntimo do eu lírico, Amor do que sou/e nada mais,
reforçando que apenas se expõe a ele próprio. O quarto terceto começa pela
copulativa E, estabelecendo a continuação do terceto anterior – que, ainda na
opinião de outros, devia ser a estância a iniciar-se pela adversativa. Porém, o eu
lírico exterioriza a dualidade de sentimentos que se debatem no seu íntimo, amor
contrastando com gritos de sofrimento e de revolta, e desta vez generalizando e
estendendo a revolta aos habitantes do país que ainda não existe. A última
estância inicia-se pela interjeição Ah! manifestando a sua dor, ou espanto por
deter sentimentos contrastantes. Notar que Amor, nesta estância, é escrito com
letra maiúscula, conotando a vontade profunda de que haja harmonia –
verdadeiro amor − entre os seres humanos do seu país. O terceiro verso é
apenas uma palavra, o pronome sujeito Eu! seguido de um ponto de exclamação,
distinguindo perfeitamente os sentimentos do eu lírico, a sua individualidade como
ser humano. O quarto verso, Homem qualquer, apesar de parecer particularizar,
sugere que, como ele, outros desejam a fraternidade concedida pela liberdade.
Notar ainda a repetição de de uma Nação que ainda não existe, na qual se
distingue o orgulho contido na maiúscula com que Nação é escrito, e o advérbio
de tempo ainda, apontando para a certeza de que um dia Moçambique seria
independente.
Esta pequena diretiva aponta apenas para alguns dos pontos que se espera
sejam desenvolvidos. Algo que não se deve ignorar é o enjambement entre a
grande parte dos versos e o seu significado.
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OU
PERGUNTA 8
8.1 O eu lírico recebe um homem bastante diferente, modificado, que
regressara com os olhos de alguém que presenciara muitas vezes a morte
perto de si, com a morte nos olhos, que voltara descalço, sinal das
provações sofridas, e sem sandálias, um homem que nem parece ser o
amado que o eu poético conhecera no passado, como se um outro te
habitasse. Até a voz parecia diferente, seria certamente uma voz dorida,
perdeste tua língua de metal.
8.2 Não parecia o mesmo homem. O sofrimento que passara tinha-o
modificado, era um homem diferente.
8.3 As sandálias representam a estabilidade, a firmeza da vida no meio rural
que, embora pobre, denota constância. A falta das sandálias insinua a
fuga, o sofrimento, o contrário da permanência da vida no meio rural.
8.4 o que regressou de ti/é tua sombra/dividida ao meio
8.5 No passado as falas do marido tinham a firmeza do metal, tua língua de
metal; teria sido a fala de alguém com conhecimento empírico do meio
circundante, tal como acontece nos meios rurais, onde prevaleve a
experiência de séculos transmitida de geração em geração, a dos sinais e
do provérbio. Fora uma voz suave que o eu da enunciação caracteriza
como macia de capim e veludo.
No presente, após o regresso, as falas do amado são amargas, isto é,
frias, penetrantes, que denotam experiências amargas; são as falas de
alguém que sofreu, que matou, que sofreu a injustiça e foi injusto, que
presenciou como a vida é difícil, a vida sem compaixão pelos outros.
8.6 onde perdeste tua língua de metal/a dos sinais e do provérbio
onde deixaste a tua voz/macia de capim e veludo/semeada de estrelas
Para além dos versos, a perda das sandálias. Os homens do campo
andam descalços, e se o amado calçava sandálias é porque teria outra
posição na aldeia rural.
8.7 A estrela comunica significados variados. A estrela representa a perfeição,
a luz, mas também a esperança e a sabedoria porque emana uma luz que
vem do céu. Atendendo à sua natureza noturna, também pode representar
a verdade e a luta contra as forças da escuridão. Estas interpretações
reforçam a ideia de que o amado seria um griote, uma pessoa imbuída da
sabedoria ancestral, e ao mesmo tempo cheia de esperança e ilusões.
8.8 o que regressou de ti/é tua sombra/dividida ao meio/é um antes de ti
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8.9 Frases curtas, o eu e o amado estão no mesmo contexto: o eu dirige-se
diretamente ao marido, certas expressões verbais próprias de algumas
comunidades africanas, num tempo para além/do tempo todo, a repetição
Amado, meu amado, e o provérbio Kwanyama que funciona como uma
espécie de prólogo, "Dizes-me coisas tão amargas como os frutos ...", que
deu o nome ao livro de onde o poema fo extraído.
8.10 No contexto africano, os feitos históricos e heróicos, o conhecimento
adquirido pela experiência secular, as sentenças morais são transmitidas
oralmente de geração em geração. A composição poética tem
características de oratura: frases curtas, o eu e o amado estão no mesmo
contexto, o facto de o amado ser o griote da comunidade que passava os
ensinamentos, como se constata nos versos perdeste tua língua de metal/a
dos sinais e do provérbio. O que reforça esta noção é a palavra provérbio.
Era também por ditos, sentenças e provérbios que o conhecimento era
transmitido.
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