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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE EXAMINATION
NOVEMBER 2017
PORTUGUESE FIRST ADDITIONAL LANGUAGE: PAPER II
Time: 2 hours 70 marks
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Portuguese FAL P2 2017 hlayiso.com
Portuguese FAL · Grade 12 · 2017. Question paper, 14 pages. Read online or download the PDF.
- Subject
- Portuguese FAL
- Grade
- Grade 12
- Document type
- Question paper
- Year
- 2017
- Paper
- 2
- Publisher
- IEB
- Pages
- 14
- File size
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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE: PORTUGUESE FIRST ADDITIONAL LANGUAGE: PAPER II Page 2 of 14
Responda apenas a duas perguntas: um ensaio e uma pergunta direcionada.
SECÇÃO A ROMANCE / NOVEL
O último voo do flamingo, Mia Couto
PERGUNTA 1
Excerto A
Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no parto não
me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas da minha
mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava.
Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
− Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas que só vive no correr da água. Quem quer
prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui na mão. Falo do tempo, falo da
água. Os filho se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio
tem data de nascimento? Em que dia exato nos nascem filhos?
Excerto B
Quando chegámos [o meu pai] estava reiclinado no velho cadeirão. Anunciámo-
nos. Manteve-se calado, impávido, contemplando o rio. Sua voz, delongada, me
arripiou:
− Estão a ouvir os pássaros?
Pássaros nenhuns não havia. Tudo em liso silêncio. Meu pai, só ele escutava o
rouco grasnar dos flamingos. Dívida que ele tinha com as aves pernaltas. Os pescadores
chamam-lhes os «salva-vidas». No meio da noite, em plena tempestade, quando se
perde noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores
perdidos. Também meu velho foi salvo pelas grandes aves. Naufragado em certa
pescaria, ele estava já bebendo o oceano, engolido pelas ondas e vomitado pela noite,
quando avistou fantasmas pastando no chão da escuridão. Eram fugidios vultos
brancos, sobre o roçar da rebentação:
− Deus já me mandou anjos!
Excerto C
Massimo ficou parado, atolado em impotência. Ficou ali, sem ida nem volta.
Entretanto começou a chuviscar. Meu pai, como sempre, não se abrigava da chuva. Ele
sorveu umas tantas gotas, lhe tomando o gosto. E concluiu:
− Esta chuva já é antiga.
Está sempre chovendo a mesma chuva, costumava dizer. Esperava uma chuva
nova, recente, acabadinha de estrear. Então, esse mundo iria cambalhotar, com
melhores nascimentos.
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NATIONAL SENIOR CERTIFICATE: PORTUGUESE FIRST ADDITIONAL LANGUAGE: PAPER II Page 3 of 14
Excerto D
Eu olhava a teimosia do meu pai e me parecia ver nele uma raça inteira
sentando o seu tempo contra o tempo dos outros. Pela primeira vez senti orgulho nele.
Ele ali estava frente ao rio, numa cadeira tão antiga como o chão.
− O rio parou?
O italiano me olhou, arrelampejado. Eu sabia que não era para responder. Ele,
afinal, não falava o que dizia. Referia outro assunto. Seu assunto era o tempo.
− O rio parou? Hein?
− Não, pai
Excerto E
− O que sucedeu afinal? Com suas mãos?
Eu mesmo relembrei o sucedido. Certa vez meu velho apanhou em flagrante o
enteado de Jonas caçando elefante. Fora da época, fora da licença. Prendeu-o. Foi seu
erro. Dona Ermelinda, a esposa do chefe, apareceu na prisão clamando que aquilo era
perseguição política.
− Solte meu filho – ordenou a Primeira Dama.
Sulplício não acatou a ordem. Não tardou que chegasse o administrador. Virou-
se o feitiço contra o feiticeiro. Num segundo, o moço estava livre e ele, o fiscal-polícia,
estava preso de mãos amarradas.
[Capítulo 12º, «O Pai sonhando frente ao rio parado», Págs. 136–143,
Texto adaptado e com supressões]
O romance em epígrafe está, a cada passo, permeado de simbolismos
importantes para a mensagem que o autor pretende transmitir.
1.1 Identifique o narrador dos excertos acima, e classifique-o. (5)
1.2 Refira o papel cultural desse narrador. (5)
1.3 Excerto B. Os pássaros desempenham um papel importante na obra.
Refira-se a esse papel. (5)
1.4 Excerto C. Explicite a diferença entre a 'chuva antiga' e a 'chuva nova' que
era esperada e faria esse mundo [...] cambalhotar, com melhores
nascimentos. (5)
1.5 Excerto D. Comente o valor expressivo da frase: «Eu olhava a teimosia do
meu pai e me parecia ver nele uma raça inteira sentando o seu tempo
contra o tempo dos outros. Pela primeira vez senti orgulho nele. Ele ali
estava frente ao rio, numa cadeira tão antiga como o chão.» (5)
1.6 O excerto E refere Jonas, Dona Ermelinda e o administrador. Relembrando
o estudo efetuado, caracterize a figura do administrador. (5)
1.7 Identifique a figura de estilo contida em «avistou fantasmas pastando no
chão da escuridão» e comente a sua expressividade. (5)
[35]
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OU
PERGUNTA 2
Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no parto não
me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas da minha
mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava.
Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
− Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
[Pág. 136]
De acordo com Homi Bhabha, as culturas influenciam-se umas às outras
mas os povos que se influenciam vivem diferentes tempos, havendo uma espécie
de fratura e de forte contradição que levam a inevitáveis perdas de elementos
locais.
No narrador de O último voo do flamingo, confluem dois sistemas de
valores que se questionam, que se sobrepõem, abrindo-se um terceiro espaço
resultante da 'fratura' e da perda de 'elementos locais'. Atualmente, pessoas
localizadas entre diferentes culturas podem ser denominadas traduzidas. São
homens traduzidos.
Tendo em atenção as afirmações, analise a figura do narrador da obra que
se intitula 'tradutor'.
[35]
35 marks
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SECÇÃO B PEÇA DE TEATRO / DRAMA
Deus lhe pague, Joracy Camargo
PERGUNTA 3
Juca: (Desconfiado). Boa noite ... O senhor em minha casa?
Senhor: (Risonho). Quis ter a honra de ser o primeirio a abraçá-lo. (...)
Juca: Espero que não venha censurar-me por permanecer na fábrica depois de acabado
o serviço...
Senhor: Ao contrário! Sempre tive grandes simpatias por você. E já estou informado de
que está às portas com o invento do novo tear.
Juca: (Modesto). Qual! Um aparelhozinho sugerido pela preguiça de um operário
cansado ...
Senhor: Uma preguiça que faz o trabalho de cem operários ...
Juca: (Alarmado). Como é que o senhor sabe disso?!
Senhor: Só assim o seu invento teria o valor que o meu gerente lhe atribui.
Juca: (Meio atrevido). Mas, afinal, que é que o senhor deseja de mim?
Senhor: (Enérgico). Não se esqueça de que sou seu patrão! (Juca encolhe-se,
humildemente). Não se julgue, por enquanto, um grande senhor! O seu invento será
inútil sem o meu auxílio.
Juca: Já tenho propostas de fábricas estrangeiras ...
Senhor: É a mesma história de todos os inventos nacionais ... (Sentando-se). Sente-se!
(Juca não obedece). Sente-se!
Juca: Peço-lhe que me dispense. Ficaria constrangido diante do patrão. (O senhor sorri).
Maria: Sente-se Juca! Você vai ficar mais rico do que ele.
Juca: Quem foi que lhe disse isso?!
Maria: Ele mesmo!
Juca: (Desconfiado). Ah! ... (Ao senhor). Acha, então, que vou enriquecer?
Senhor: Se não for idiota! (...) Transferindo o invento para mim, convencido de que não
o poderia explorar.
Juca: E depois?
Senhor: Ser-lhe-ia garantida uma percentagem sobre o excesso de produção...
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Juca: Isto quer dizer ... ?
Senhor: ... que em pouco tempo seria milionário ... à minha custa ...
Juca: À custa do meu invento ...
Senhor: Já lhe disse que o seu invento não vale nada ... sem o meu auxílio! ... [...]
Juca: Maria! Onde estão os meus papéis?! (Sai a correr. Maria corre à porta que dá para
a rua e nela aparece o senhor).
Senhor: Indiscreta ...
Maria: O senhor ainda está aí?
Senhor: Estou sempre onde está o meu interesse ... Boa noite ... menina ... Fique
pensando num lindo palácio ... e nos vestidos de seda ...
[Págs. 55–61]
3.1 Explique como é que o Senhor teve conhecimento do invento de Juca. (5)
3.2 Explicite a intenção da terceira fala de Juca. (5)
3.3 Juca assusta-se de que o Senhor saiba que o invento faria o trabalho de
cem operários. Justifique o alarme de Juca. (5)
3.4 Quando Juca se atreve a perguntar ao Senhor por que razão o foi procurar
em casa, o Senhor responde de maneira contrária à pretensa amabilidade
que usara até então. Leia a fala e selecione as respostas.
Senhor: (Enérgico). Não se esqueça de que sou seu patrão! (Juca encolhe-se
humildemente). Não se julgue, por enquanto, um grande senhor! O seu invento
será inútil sem o meu auxílio.
3.4.1 Senhor: (Enérgico). Não se esqueça que sou seu patrão!
O dramaturgo pretende revelar:
a má criação do patrão
que o patrão se impõe pela ameaça
a opressão do fraco pelo forte
a diferença existente entre patrões e empregados (1)
3.4.2 (Juca encolhe-se humildemente).
A reação de Juca conota:
susto
a servilidade tradicional do operário a que era difícil escapar
o medo de perder o emprego
o medo do patrão (1)
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3.5 Senhor: É a mesma história de todos os inventos nacionais ... (Sentando-
se). Sente-se! (Juca não obedece). Sente-se!
A fala do Senhor indica:
prepotência
abuso de autoridade
orgulho
desprezo (1)
3.6 Leia o trecho:
Juca: (Desconfiado). Ah! ... (Ao senhor). Acha, então, que vou enriquecer?
Senhor: Se não for idiota!
Juca: Como assim?
Senhor: Transferindo o invento para mim, convencido de que não o poderia
explorar.
As falas do Senhor revelam:
que se imagina superior
que a classe operária não tem possibilidade de subir a escada social
a exploração do fraco pelo forte
a injustiça (1)
3.7 Senhor: Ser-lhe-ia garantida uma percentagem sobre o excesso de
produção ...
Exponha a sua opinião sobre a proposta do Senhor. (5)
3.8 Leia com atenção o último excerto do texto transcrito. A partir dele,
caracterize o Senhor. (5)
3.9 As reticências são um traço de Deus lhe pague. Explique o valor das
reticências dos seguintes excertos:
3.9.1 Juca: (Desconfiado). Boa noite ... O senhor em minha casa? (1)
3.9.2 Juca: Já tenho propostas de fábricas estrangeiras ... (1)
3.9.3 Senhor: ... que em pouco tempo seria milionário ... à minha custa ... (1)
3.9.4 Juca: À custa do meu invento ... (1)
3.9.5 Senhor: Indiscreta ... (1)
3.9.6 Senhor: (...) Fique pensando num lindo palácio ... e nos vestidos de
seda ... (1)
[35]
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OU
PERGUNTA 4
Tendo em conta a trama de Deus lhe pague,
discuta a figura do mendigo e a duplicidade da
esmola. No contexto da peça de teatro, será o
mendigo uma necessidade social? Desenvolva a
resposta num discurso bem estruturado.
[<www2.uol.com.br>]
[35]
35 marks
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SECÇÃO C CONTO / SHORT STORY
«O Tesouro», de Eça de Queirós
PERGUNTA 5
[<http://pt.123rf.com>]
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro, um fio de água brotando
entre rochas caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e
quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um
velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os
tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a erva pintalgada de
papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante
de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a
considerar, na sua fala mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à
mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em
Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o
ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com
rufiões, aos dados, pelas tavernas.
− Ah! Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não
dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
− Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado ganhou os cem ducados
ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
− Vês tu? − gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia,
que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
− E para quê? − prosseguia Rui. − Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu
não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está
negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves! Mas até lá terá dissipado os
bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa cara, e para tu teres
ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu berço de solarengo, como compete a quem é,
como tu, o mais velho dos de Medranhos …
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− Pois que morra, e morra hoje! − bradou Rostabal.
− Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos,
por onde Guanes partira cantando:
− Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu,
Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça
de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de
“cerdo” e “torpe”, por não saberes a letra nem os números.
− Malvado!
5.1 Recorrendo ao conhecimento que tem, refira a situação inicial do conto. (5)
5.2 Em duas linhas remeta para o acontecimento que alterou o dia a dia dos
três irmãos. (2)
5.3 Explique como reagiram os irmãos face a esse acontecimento. (5)
5.4 Caracterize um dos irmãos presentes no excerto. (5)
5.5 Identifique um segmento descritivo e apresente as suas características. (5)
5.6 Há concordância entre os irmãos e o espaço circundante? Justifique. (5)
5.7 Explique o uso do verbo e do advérbio sublinhados, destacando a sua
expressividade:
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas
negras. (5)
5.8 Apresente um provérbio que possa resumir o fim do conto. (3)
[35]
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OU
PERGUNTA 6
Para o Realismo, o homem é um produto das
circunstâncias que o envolvem – da
hereditariedade, da influência do ambiente, da
atmosfera social, cultural e moral, de
condicionamentos educacionais, económicos
e políticos, e ainda do espaço físico e
geográfico. Em suma, o homem é o resultado
do meio em que nasce, cresce e se
movimenta.
Comente de que modo a afirmação se aplica
às personagens do conto e ao
desenvolvimento da trama.
[<http://www.boca.pt/o-tesouro.html>]
[35]
35 marks
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SECÇÃO D POESIA / POETRY
PERGUNTA 7
«Aniversário», de Álvaro de Campos
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
5 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
10 Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
15 O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui ...
A que distância! ...
(Nem o acho ... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
20 Pondo grelado nas paredes ...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio ...
25 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim ...
30 Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui ...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
35 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
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Hoje já não faço anos.
40 Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
45 O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! ...
No verso «Eu era feliz e ninguém estava morto» o eu-poético manifesta o
conformismo com o presente, que não pode ser idealizado, mas que está
alicerçado num passado inocente, que se contrapõe à atual falta de perspetivas e
à desmotivação para a vida.
A partir da afirmação acima, proceda a uma interpretação do poema, ilustrando
tudo o que disser com os versos respetivos. Tenha também em atenção a
mancha gráfica da composição poética.
[35]
OU
PERGUNTA 8
«Romance das pérolas», de Afonso Lopes Vieira
Nas praias do mar chorando,
debruçadas para as ondas,
as mulheres, as mães, as noivas
choram lágrimas salgadas;
5 e o vento doido, cavando,
cavando nas águas bravas,
põe-se, rindo e assobiando,
sobre o mar às enxadadas.
Andam longe navegando
10 os barcos, e, desgrenhadas,
as mulheres, as mães, as noivas,
debruçadas para as ondas,
nas praias do mar chorando,
choram lágrimas salgadas.
15 As brancas ondas, quebrando,
são altas serras iradas;
e as mulheres, as mães, as noivas,
brancas de horror, desgrenhadas
nas praias do mar chorando,
20 choram lágrimas salgadas.
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Caem nas águas, rolando,
estas lágrimas choradas,
enquanto as ondas, quebrando,
são altas serras iradas,
25 e o vento doido, cavando,
cavando nas águas bravas,
se põe, rindo e assobiando,
sobre o mar às enxadadas.
No fundo do mar poisando,
30 as lágrimas congeladas
fazem-se em pérolas, quando
nas praias do mar, chorando,
as viúvas desgraçadas
e as enviuvadas noivas
35 desesperaram, espr'ando
aqueles que não voltaram.
E com lágrimas salgadas
que as infelizes choraram,
depois as afortunadas
40 se enfeitaram ...
8.1 Narre a história do poema em 3 linhas. (4)
8.2 Indique a época histórica a que o poema alude. (2)
8.3 Explicite a posição assumida pelo vento e pelas ondas face ao desejo dos
navegantes. (5)
8.3.1 Nomeie a figura de estilo explícita nessa posição. (1)
8.3.2 Transcreva os versos que reforçam essa posição. (3)
8.4 Faça um pequeno comentário ao ritmo do poema. (5)
8.5 O tempo é marcado por dois binómios que facilmente se podem
compreender. Indique esses binómios e explique-os. (5)
8.6 Explicite o valor expressivo da utilização dos gerúndios chorando, cavando,
assobiando, navegando, quebrando, poisando, espr'ando. (5)
8.7 Comente a ironia contida na última estrofe. (5)
[35]
35 marks
Total: 70 marks
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